Multiplicação de leitores: o escritor como mediador (Discurso proferido pelo escritor Léo Cunha no 8º Seminário Prazer em Ler)

12:23:00Rio de Leitura




"Nem todo escritor tem vocação pra cantor, 
Nem todo escritor tem vocação pra ator,
Nem todo escritor tem vocação pra humorista, palhaço, ilusionista.
Confesso que tenho inveja dos que têm algum desses talentos, ou todos eles.

A teatralidade da Sylvia Orthof,
A pantomima do Pedro Bandeira,
A musicalidade do Tino Freitas, 
A maluquice do Ivan Zigg,
Os truques da Marta Lagarta,
O olhar rasgante de grande atriz da Lygia Bojunga,
A cachoeira incessante de causos e piadas do Jessier Quirino.

Nem todo escritor é como eles. Nem todos nascemos para o palco.

Mas todo escritor tem vocação pra mediador.

Com seus poemas e histórias, 
seus contos e novelas, 
suas crônicas e memórias, 
o bom livro consegue encantar o leitor
o bom livro consegue levar o leitor a desligar a tevê, o telefone, a internet, o ipad, a campainha... 
só pra passar mais tempo ao lado daqueles personagens,
só pra torcer pelo herói, 
só pra torcer pelo beijo tão adiado,
só pra torcer o nariz... praquela teimosia do anti-herói,
pra se retorcer de rir com o humor daquele causo,
pra se contorcer de aflição com os perigos daquela aventura,
pra se comover com aquele gesto de amizade,
pra reler dez ou cem vezes uma frase surpreendente,
uma estrofe emocionante.

          Quando faz isso o escritor mostra que, da sua forma, ele é também um bom mediador.

          O mediador incentiva, vasculha bibliotecas, descobre livros, cria várias situações de aproximação do leitor com a literatura. Mas, puxando a brasa um pouco pra minha sardinha, acredito que é difícil criar leitores fiéis, empolgados, encantados, sem a presença de bons textos literários. Um belo poema, uma ótima crônica, um conto envolvente ou perturbador, todos eles são parceiros indispensáveis de qualquer mediador. São o outro lado da mesma moeda.

       Todo mediador tem como um de seus papéis conhecer a diversidade de livros existente na sua escola, na sua biblioteca, na livraria, seja onde for que as histórias estejam. O mediador tem também o papel de conhecer seus leitores, ouvir seus leitores, muito mais do que as listas oficiais e extra-oficiais que pululam por aí. Temos ótimas listas de melhores livros do ano, todas elas bem diferentes entre si, felizmente, e todas muito bem vindas. Eu, particularmente, adoro listas. Mas para o mediador, mais importante que conhecer as listas é conhecer os livros. De preferência muitos e bem variados. De diversos autores, gêneros, épocas, origens, estilos, temáticas.

          Para o escritor também funciona mais ou menos assim. Acredito que todo escritor pega o que leu na infância, na adolescência, ou ontem de tarde, e mistura aquilo tudo no caldeirão, que é sua cabeça (e dali pra sua caneta, ou seu teclado). Mistura Mark Twain e Monteiro Lobato, Hans Christian Andersen e José Paulo Paes. Essa mistura já é uma forma muito rica de mediação, que faz multiplicar um mundo de histórias possíveis e impossíveis, um mundo de imaginação e delírio, mas também memórias e afetos.

          No meu livro "Ninguém me entende nessa casa", a primeira crônica tem o título pomposo, mas claramente debochado, "Memórias de um fusca: ou de como eu entrei para a história da literatura brasileira". Vou ler para vocês, como uma ilustração disso que estou dizendo.

           Se me lembro bem, era julho de 1976, e eu, com meus dez anos de idade, estava indo passar o fim-de-semana no sítio do Orígenes Lessa! Ele mesmo, o escritor de “O Feijão e o Sonho”, das “Memórias do Cabo de Vassoura”, das “Letras Falantes”, das “Memórias de um Fusca”. Eu tinha lido mais de quarenta livros do Orígenes e, pra mim, ele era o maior escritor do Brasil. E não era só isso, não. Minha mãe garantia que ele era um dos primeiros e mais talentosos publicitários do país (inventou até o nome Kibon, imaginem!)

          Ele era um sujeito muito importante na cultura brasileira, mas, além do sítio e do apartamento de um quarto na avenida Prado Junior, em Copacabana, possuía apenas um fusquinha 66. Acho que era o fusca do livro. Como o Orígenes tinha mais de 70, quem dirigia era a Maria Eduarda, sua esposa de Lisboa ("É portuguesa, coitada...", ele costumava brincar). 

          O sítio ficava em Paraíba do Sul, estado do Rio, e a viagem durava mais de duas horas. Minha mãe e minha irmã foram no banco da frente. Atrás, todo metido, eu viajava entre meu pai e o meu ídolo.  Na estrada, paramos num posto de gasolina, e as três mulheres desceram pra ir ao banheiro. Orígenes contava um caso engraçado e antigo pro meu pai, e acho que por isso os dois não perceberam quando o carro começou a descer de ré. A Maria Eduarda tinha esquecido de puxar o freio de mão, e o fusca começou a recuar com gingado. Senti alguma coisa esquisita no ar, virei o pescoço e vi um precipício gigantesco atrás de nós. O carro ganhando velocidade. Orígenes e meu pai rindo alto, nem desconfiando da tragédia que estava prestes a acontecer. Foi então que eu dei um pulo pro banco da frente, agarrei aquele freio e puxei pra cima, com toda força. Ufff, o carro parou com um  estrondo!

          Olhei pros lados. Os dois adultos estavam atônitos, brancos feito uma página vazia. Dali a um segundo, o Orígenes começou a aplaudir, balançando a cabeça onde, com certeza, se misturavam as idéias para um punhado de livros que ele escreveria depois.  
Não fosse aquele meu impulso de heroísmo infantil, Orígenes não teria escrito, nos dez anos seguintes, algumas obras primas da literatura infantil e adulta: “É conversando que as coisas se entendem”,Milagre em Ouro Preto”, “A noite sem homem”, entre outros tantos.

         Por outro lado, se eu não tivesse puxado aquele freio de mão, teria poupado Orígenes do embaraço de concorrer com José Sarney por uma vaga na Academia Brasileira de Letras. E perder. Mas o que importa, mesmo, é que meu escritor favorito viveu mais dez anos, trazendo fantasia, humor e poesia pra criançada. Ninguém sabe disso, mas naquele dia eu entrei para a história da literatura brasileira. 

PS: Felizmente, o Orígenes se candidatou uma segunda vez à Academia e ganhou, quase por unanimidade.

          Esta crônica conta uma história verdadeira que aconteceu em minha infância. Eu tive a sorte, o privilégio mesmo, de conviver com muitos escritores durante a minha infância e adolescência, por causa da livraria da minha mãe, a Casa de Leitura e Livraria Miguilim, que funcionou de 1978 até o começo da década de 1990. 

         Eu ia quase diariamente aquela livraria e lia tudo – literalmente tudo – o que havia publicado para crianças e adolescentes. Foi ali que comecei a me fascinar com a riqueza, a qualidade e a variedade da literatura infantil, brasileira e também estrangeira. E pude conhecer vários escritores e ilustradores que iam ali lançar seus livros ou ministrar oficinas. Fiz oficinas de poesia, criação literária, fotografia, teatro, etc. 

          Também tive a sorte de crescer rodeado de grandes contadores de história. Além da minha mãe, também o meu avô, sujeito que pouco estudou, mas que era um leitor voraz. Contava histórias como poucos, recitava muitos poemas de cor, brincava de charada, adivinha, fazia trocadilhos. Foi meu grande narrador – naquele sentido usado pelo Walter Benjamin.

          Um livro em especial ele carregava com muito carinho e (re)lia incessantemente, empolgado, ao longo dos anos: uma versão em capa dura do "Grande Sertão: Veredas". Certa vez perguntei para ele porque estava sempre com o mesmo livro na mão e ele respondeu: "é que eu termino o livro e começo de novo... e termino e começo de novo"...

          Aquele livro do meu avô foi a primeira vez que eu tive a noção de que os livros (ou pelo menos os bons livros) são inesgotáveis. Quando eu me tornei escritor, muitos anos depois, meu sonho – nem sempre dá certo, mas a tentativa vale – sempre foi criar histórias e poemas que façam pelo menos um pouco daquilo que o "Grande Sertão: Veredas" fez com o meu avô. Criar livros que não se esgotem numa só leitura, que guardem segredos e sabores para uma segunda ou terceira leitura. Que deixem espaço para leituras variadas, cada leitor encontrando algo particular naquele livro.

          Nesse sentido, também acredito que o escritor é um multiplicador de leituras e de leitores."


Leo Cunha • Natal • Agosto de 2014



Você também pode gostar de

0 comentários

Postagens mais visitadas

Imagens Flickr

Formulário de contato