Por que eu leio

11:25:00Rio de Leitura

Fonte: Acessado em blogdacarambaia.com.br, em 22 de março de 2015

          Leio porque há algo além disso. Disso aqui e disso daí. Tem de haver algo mais. Algo inalcançável e, ao mesmo tempo, capturado nas páginas, eternizado na tinta, contido à força pelas capas e cola e tecido. Leio porque há outros mundos, outros lugares, outras paisagens e quero estar lá. Mas preciso estar aqui. Leio porque há os sussurros. Porque aprendo, porque recebo, porque almejo. Leio para me distrair. Leio distraída. Leio porque mereço rir e chorar e ser feliz e desejar que as páginas não acabem jamais. E porque namoro as capas dos livros. Leio porque está frio e estou só. Para o mundo fazer sentido. Para que o mundo suma. Porque meu amor pelos Veríssimos nunca se altera. Leio porque odeio, absolutamente odeio, o calor. Porque sinto tanto medo.

          Leio, leio, leio, leio porque não há nada a temer. E enquanto espero a água ferver, leio porque fui eu que traduzi, porque o Almeida Reis fez um livro novo, porque procuro por uma passagem específica. Leio, basicamente, porque esse livro era do Alexandre. Leio porque acabo de receber o livro novo do Idelber. Porque meu irmão mandou e eu leio tudo que ele me manda ler. Leio porque jurei a bandeira e me juntei às tropas. Para me sentir viva. Para me sentir sã. Para me sentir amada. Para amar.

          Leio porque esse livro é da minha mãe, que me ensinou a preferir os ensaios aos romances. Porque um amigo escreveu, porque desejo gravar todas as cores em minhas retinas, porque o som está alto demais. Leio porque a vida é essa. Porque faço parte dos meus livros. Leio por vários motivos e pessoas. Porque a Zélia Gattai escreveu coisas tão lindas. Porque o Nelsinho fez um livro perfeito, que mora na minha bolsa, porque o Char usa cédulas de dinheiro antigo como marcador.

          Leio, leio, leio, porque Mau citou um artigo, a Ryta abriu um sebo, a Chris ligou chorando no meio do parágrafo, a Silvana me mostrou, a Esther acha esse autor importante. Leio porque vi a entrevista do autor. Leio porque preciso entender ou esquecer, dominar, superar ou deixar para lá, capturar o sentido ou admitir que não entendi nada.

          Leio todos os dias, muitas horas, vou e volto, grifo passagens inteiras, leio e releio, anoto nas margens, futuco a internet, namoro a foto do autor, copio frases na agenda, suspiro. Leio porque não sei nada, porque sou uma heroína, porque perdi o celular mais uma vez, porque sou a vilã, porque sou sábia, besta, justa, inteligente, espertinha, burra como uma porta fechada; porque procuro uma saída, porque hei de morrer como uma traidora.

          Leio porque a Andréa despejou uma pilha de livros aqui. Porque meu ateísmo comporta, adora e não abandona Santo Agostinho. Leio porque depois vou dar o livro para a Ana Paula, ou para o Cláudio, ou para o Peter. Porque preciso ficar sozinha. Leio porque não suporto ficar sozinha, nunca, nunca, nunca.

          Leio porque a história virou filme, mas o livro é melhor. Porque os dias têm sido um presente, porque a Elô ama a Inês, porque a Maloca me leva para passear e tomar café, porque são 3h da manhã e meu ouvido dói tanto que acho que vou levitar. Leio porque o Max sabe do livro que estou escrevendo e me encontrou uma nova fonte de pesquisa, porque a Verônica me ama e me dá livros sobre o Aníbal de presente.

          Leio porque minha editora é a Helena, porque a Maliu comprou a coleção toda, porque eu fiz queijo quente, porque é a coluna da Cora Rónai, porque Sexta-Feira o Rabino Acordou Tarde. Não posso evitar de ler porque a Julia não para de encontrar links importantes. Leio porque tinha pontos sobrando na livraria. Para minha surpresa, leio porque sou capaz de mudar. E não há nada lá fora, nem depois do oceano, nem debaixo da cama, nem em lugar nenhum. Leio porque nem tudo está perdido.



 *Para Andréa Kogan, que me deu o mote. Fal Azevedo, escritora e tradutora.


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