Literatura e Afetividade ou como beber das águas das tartarugas

10:59:00Rio de Leitura


          Convidado a falar sobre a relação entre literatura e afetividade, embora amante e praticante da arte literária, não posso deixar de frisar que a afetividade antecede a literatura e a ela se sobrepõe. Assim sendo, não vejo como falar desta relação que não seja no sentido contrário: afetividade e literatura. Quando muito posso e devo colocar a literatura no meio do caminho, compondo mais uma tríade do que um binômio: afetividade – literatura – afetividade. Porque a literatura é sempre o meio do caminho, sendo feita de palavras e, sendo estas, meios de interação e, portanto, de afetos. 

          Começo, pois, por afetividade. Somos feitos de afetos e estes nos conduzem pela vida, até o fim do nosso ciclo quando então afetamos o outro pela última vez e, às vezes, definitivamente. Falemos então de afetos. Mas vou prescindir de falar de “afeto” do ponto de vista filosófico ou psicológico-psicanalítico, pelo menos não objetivamente. Quando penso em afeto, sempre me vem a ideia do abraço. Como todo homem brasílico, todos os meus dias se emolduram pelo abraço. Nada é mais afetivo e afetuoso do que um abraço. 

          Naturalmente sei que o afeto tanto está propenso ao abraço quanto à repulsa. Há objetos a que nos enlaçamos como há aqueles que nos afetam negativamente e neles nos envolvemos quanto mais tentamos nos desvencilhar, provocando uma infinidade de afetos. Todavia, penso em abraço, porque a maior particularidade do afeto é que, seja positivo ou negativo, não se dá sem o outro. Não nos podemos afetar se não por meio da interação. 

          Nós só nos afetamos se o outro nos afeta e por nós é afetado, construindo um círculo de afetividade. Para compreender este círculo e nele inserir a literatura convém que compreendamos a diferença entre afetos e emoções. Embora tratados como sinônimos, os afetos são a pura sensação ante o contato com um outro: a criança no seio da mãe; o amigo que se enlaça ao amigo; o contato dos amantes; o confronto com quem nos agride ou oprime. São sensações primeiras cuja expressão se concretiza nas emoções e sentimentos: temor, tristeza, alegria, bem-estar, melancolia, saudade, raiva, repugna. 

          Infinitas são as possibilidades de afeto e por meio deles temos construído a humanidade e a mantemos viva apesar de inumeráveis desafetos. O ódio, a inveja, a ganância, têm lançado suas chamas sobre os homens e sobre as mulheres; sobre as crianças e sobre os adultos; sobre os jovens e sobre os velhos. Mas, em contrapartida, muitos são os encontros afetuosos que têm unidos os homens em torno da fogueira, ao redor da mesa, nas calçadas e praças, permitindo enlaces de sentimentos e ideias que religam o homem ao melhor de cada um.

          O que permite que a humanidade persevere às adversidades é justamente o fato de que todo afeto se transforma em memória. A memória é o elo imaterial dessa fricção de corpos, deste contato de outros. Ao longo da vida acumulamos afetos e erigimos uma memória que solidifica, com o perdão do paradoxo, a nossa psique. É inimaginável um homem sem afetos, a frieza da existência, incapaz de emoções e sentimentos, é a gélida lápide de um corpo vivo e sem vida. 

          Transmudado o afeto em memória, as emoções podem ser revividas a partir de outras interações. Basta que se toque com fina lâmina o cálice de cristal e faça vibrar a reminiscência que volta à tona, embora ressignificada, a emoção guardada na memória. Muitos são os objetos a cumprir o papel deste instrumento delicado: uma canção, uma imagem, um déjà vu, uma melodia, um livro. 

          Aqui posso inserir, enfim, a literatura. 

          Sem esquecer que falo a educadores, preciso, antes de dedicar minhas palavras ao papel da literatura na construção dos afetos, preciso primeiramente salientar a importância do afeto para a educação. Nada depende mais do afeto que o ofício de educar. A educação começa no seio da família, e esta só educa significativamente se têm sólidos vínculos afetivos. A boa educação familiar depende do afeto entre pais e filhos; a boa educação escolar depende do afeto entre estudantes e professores. Sem afeto não se gera conhecimento, porque muito dos nossos conhecimentos vem daquilo que aceitamos, e só aceitamos aquilo que nos faz sentido e aquilo que nos faz sentir. O que não nos convém afetivamente descartamos de nossa construção individual.

          Embora com boa intenção, muitas vezes (se não na maioria das vezes) a escola peca pela objetividade de ministrar conteúdos elencados pelos mestres como o melhor a ser aprendido sem se dar conta de que, se não “afetarmos” significativamente a criança e o jovem jamais construiremos um conhecimento digno de se tornar memória. Damos o ponto, traçamos objetivos, batemos a capa do livro, ministramos lições a serem cobradas em avaliações, propomos leituras a serem submetidas a questionários e interpretações, sem nos lembrarmos que não havendo o envolvimento amoroso que provoque o sabor do saber jamais almejaremos sucesso.

          Assim se dá com a leitura. Assim nos vem a literatura.

          A fabulação literária, em verdade, se insere em nossas vidas antes mesmo da literatura. Esta está associada fortemente à escritura e ao objeto livro, enquanto aquela provém da necessidade profunda do homem de contrapor à realidade o espelho reverso da imaginação. A fabulação está ligada ao universo primevo do homem, quando em torno da fogueira, ao pé das árvores, ou nas calçadas à soleira das portas abertas se contavam histórias que muitos encantos criavam. Esta prática milenar se cristalizou na memória humana e gerou os laços afetivos que deram o esteio moral, psíquico, e cognitivo para a humanidade atravessar os séculos e construir sua história.

          Esta prática ainda tem muito a aquecer o imaginário infantil, dar-lhe o calor de um abraço e jamais será substituída pela fria tela dos aparelhos eletrônicos, porque estes não formam o espírito, apenas moldam os hábitos. O tropeço se dá quando, saindo a criança do mundo dos afetos que deve ser a casa materna, insere-se na escola. Ali a fabulação dá lugar ao livro e o calor da voz que conta é trocado pela frieza dos métodos pedagógicos e dos manuais de interpretação de texto. Esta frieza pedagógica acaba por perder, e muito, para a frieza das telas eletrônicas, porque estas ao menos prescindem do ranço das obrigações.

          O que falta à escola é afeto. Não há memória quando o afeto se evola.  

          Eu sou um amante das letras e dos livros. Mas não vou dar de mim o exemplo da memória. Prefiro falar de um autor que escreveu para adultos, para quem o céu era uma biblioteca, mas que via na memória matéria de criação. Jorge Luís Borges é um dos meus autores que amalgamaram minha existência imaginária. Este autor nunca escreveu para crianças, não como convencionalmente costumamos conhecer os livros infantis, embora eu já tenha contado para crianças algumas de suas histórias. Mas há um livro que, embora não tenha escrito, ele fez nascer pela força do afeto e sua afluência na memória. Este livro foi escrito por Matias Alinovi, um físico dedicado à arte da literatura. Quando criança, com pouco mais de cinco anos, teve o privilégio de ser colega de José Manuel, neto de Fanny, a governanta de Jorge Luís Borges. 

         Descoberto pela professora este acaso miraculoso, organizou-se um passeio a casa do consagrado autor de A História Universal da Infâmia. Na época, já um homem velho e reconhecido mundialmente. O encontro foi um encanto. Borges disse às crianças que os aguardava com dois medos: medo de que elas fossem àquela visita; e medo de que não fossem. Ao longo da conversa, improvisou uma história para as encantar e as encantou. Contou-lhes o segredo de ser tão velho. Disse-lhes que em criança vivia em uma casa cuja água vinha de um poço. Por muitos anos tomou aquela água daquele poço, onde habitavam tartarugas, mas só muito, muito depois, compreendeu que vivera muito porque não bebia simplesmente água, mas água de tartarugas, animais naturalmente longevos. 

          A história encantou as crianças e encantou-se na memória afetiva de Matías Alinovi. Quem sabe aquele encontro destinou-o a ser escritor? Talvez. Mas é certo que aquela memória renasceu no livro escrito para pequenos intitulado: “O segredo de Borges”. Esta é a magia da literatura, ela encanta pelo afeto e se enraíza pela memória. Beber desta água de tartaruga só é possível se permitimos aos iniciantes nas leituras o encontro amoroso com o imaginário. E isto só é possível se construímos a possibilidade deste encontro. Se envolvermos a leitura no doce invólucro da afetividade. Não se faz isso quando estamos excessivamente preocupados com currículos escolares. 

          Não se faz isso por meio de manuais pedagógicos e roteiros áridos de leitura. Só é possível se fizermos um dia outra escola: a escola que assuma a sua função de ser o lugar dos encontros. O encontro com os outros. O encontro com o saber e seu sabor. O encontro com os livros, vistos estes como corpos fechados prontos a se abrirem a um encontro amoroso. Onde há encontro, há abraços; e onde há abraços, há afetos. Se não possibilitamos o afeto do abraço, criamos o afeto das repulsas. E muitas crianças e jovens, infelizmente, vivem atualmente esse desencontro afetivo, a repulsa à leitura e às águas mágicas desta eterna tartaruga que é a literatura.*

Edilberto  C. – Educador Sim

* Texto lido durante o I Seminário de Proposições Didáticas de Língua Portuguesa: Literatura em Foco, pelo professor de Língua Portuguesa, Edilberto Cleutom dos Santos, na mesa "Literatura e Afetividade" nos dias 30 e 31 de maio de 2017.

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