O Prêmio IPL é dedicado a todas as "Ninas"

08:42:00Rio de Leitura

         Dia 14 de dezembro foi dia de celebrar as histórias e suas rimas, as personagens nas suas mais diversas estrofes, os escritores canônicos e os contemporâneos junto às suas métricas, um viva às palavras e a criatividade que habita nos livros sem fim nas vozes de professores que são qual retalhos em uma colcha imaginativa. Uma tessitura de histórias literárias que culminam em láureas nacionais. Tudo envolto pelo verde do Parque ao lado da Biblioteca Municipal: um 'verde que nasce'.

          Francisco Martins - em 'Palhaço Leiturino' - promovia bolhas gigantes de sabão, enquanto os escritores Weid Sousa, José Acaci, Gilvânia Machado e José de Castro liam poemas.  Autoridades como o Prefeito da cidade, o Exmo Sr Rosano Taveira, e a secretária de Educação, a professora Ana Lúcia estavam lá.  Nossos parceiros, o SESC, a Paulinas Editora comemoravam conosco o prêmio que nos pertence enquanto o troféu passava de mão em mão. Depois, fizemos o que realizamos todas os dias da semana: trocamos poemas e flores. E, sim, a escritora Ana Cláudia Trigueiro nos brindou com uma crônica em um café da manhã.  Escreveu não com brado rouco de uma teórica que visita de longe, mas com uma voz de quem se hospeda conosco em nossas bibliotecas escolares. Pegou uma 'mirim' e mostrou nela uma magnanimidade que não cabe em livros. Neste encontro entre mediadores e poesia, tinha que ter flores!  Foi um texto de tal tessitura que me transferiu lágrimas contidas no canto de olho e a vontade de declarar, em alta voz: "Sim, ainda é cedo e nós vamos fazer valer cada vírgula desse texto.  Em nome de todas as "Ninas" de nossa Parnamirim!"




UM MAR DE LEITURA PARA NINA




          Nina é uma leitora em potencial. Ela não sabe, mas está prestes a entrar no barco que a levará ao incomensurável mar da literatura. 

          Após pegar a pequena, o barquinho navega rio acima, enfrentando correntezas e intempéries. Incansável, romântico, sonhador, o barquinho pensa que é navio. E porque pensa assim, ele consegue ser...

          É seu primeiro dia na escola e Nina está muito interessada em tudo o que vê. No começo sente medo: muitas crianças, gente grande e mamãe indo embora, após a primeira hora.
Depois do lanche, Nina é levada à uma sala repleta de livros coloridos. Uma moça vestida em avental bordado se apresenta e convida as crianças a ouvirem uma história. É tão marcante a voz daquela moça! Rica em cadências (suaves, fortes, musicais) modulando-se ao ritmo da narrativa. Há animais nessa história e a moça os imita direitinho, para espanto de Nina, que só conhece uma pessoa tão boa imitadora quanto ela: a avó.

A moça também faz perguntas, mas Nina não tem coragem de responder ainda. Teme os olhares das outras crianças, que parecem dizer: você é pequena e está longe de casa. 

         Após a história, a moça convida a meninada a explorar aquele lugar. Escolher, livros, passar algum tempo com eles. Há muitos, espalhados por estantes, cestos, mesas e almofadas. Tantos, que Nina pega três de uma vez só. Não consegue escolher apenas uma, daquelas lindezas. 

Nina abre o primeiro livro, olha as gravuras e se põe a imaginar o que significam. É um circo: há palhaço, trapezistas e mágico. E é divertido, pois todos riem na plateia. Em um momento, o palhaço leva uma torta na cara e parece zangado, mas tudo se resolve na página seguinte, com uma bailarina dando-lhe um beijo na careca. Na última página, uma cambalhota sinaliza o fim do espetáculo. Que brinquedo legal é o livro! Parece conter muitos outros brinquedos dentro dele!

Nina vê a moça dos livros muitas vezes, nos meses que se seguem. Na biblioteca, na sala de aula, no ginásio da escola, no gramado. Nina também “lê” todos os livros que pode e os leva, emprestados, para casa.

Ao final do ano, a menina tem especial carinho pela moça e por seus livros. Visita-os com regularidade e interage com eles, quase com a mesma familiaridade com que se relaciona em sua casa.  Desenvolveu comportamentos interessantes sobre suas “leituras”: procura saber o nome dos autores: escritor e ilustrador, e os relaciona a outros livros com o mesmo tema. Representa-os em desenhos e conta suas histórias aos pais, avós e primos. O mundo de Nina se expandiu. Encheu-se de novas imagens, cores, palavras e histórias.

Os anos passam e Nina e continua a ler. Leva para a vida o costume de viajar pelo mar da literatura. Oceano alcançado com a ajuda da moça, da biblioteca e das ricas atividades realizadas na escola, que contaram, inclusive com a participação da comunidade. 
Um dia, folheando o jornal, Nina encontra uma notícia importante:

“Você sabia que existe um projeto de formação de leitores na cidade de Parnamirim? Você sabia que esse projeto tem ganhado importantes prêmios e levado o nosso estado ao cenário nacional da promoção da leitura? Temos razões para comemorar: inclusive o aumento no IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) que tem refletido a atuação incansável dos envolvidos.
O Projeto “Parnamirim, um rio que flui para o mar da leitura” congrega todas as 45 escolas de Ensino Fundamental do município. Objetiva promover a formação de leitores e desenvolver o gosto pela literatura por meio de ações continuadas como saraus, atos literários, fóruns, seminários, intercâmbio com escritores e editores, feiras literárias e outras ações congêneres, envolvendo a comunidade de forma que seja democratizado o livro para todos os munícipes.
O projeto acaba de ser finalista em mais um prêmio de incentivo à leitura. É um grande feito para um trabalho realizado com tão poucos recursos financeiros. Um fenômeno, principalmente quando comparado aos concorrentes de peso, como a Biblioteca Parque Villa Lobos, que tem 4 mil metros quadrados, salas de criatividade; sala de jogos eletrônicos, interativos e de tabuleiro e café-bar.

Confira abaixo os prêmios conquistados em oito anos de implantação:

2012 - Prêmio Viva leitura, promovido pelos ministérios da cultura e da educação: O projeto ficou entre os finalistas obtendo o 3º lugar como melhor experiência promovedora de leitura do Brasil. 
2014 - Título de Munícipio Leitor pelo Instituto Natura. Parnamirim foi uma das três cidades brasileiras contempladas com o prêmio.
2017: Prêmio Viva leitura. O projeto obteve o 10º lugar. 
2017: Prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). 2º Melhor programa de incentivo à leitura.
2018 - Prêmio IPL Retratos de leitura. Criado e promovido pelo Instituto Pró-Livro, com o objetivo de reconhecer e valorizar organizações que investem e/ou promovem ações voltadas ao fomento à leitura: reconhecimento como um dos três melhores projetos de leitura do Brasil”.

          No final da reportagem há uma lista com os nomes das escolas envolvidas no projeto. A escola de Nina está lá. Também os nomes de 99 profissionais envolvidos: 96 mediadores e três assessores. O nome da moça está na lista. Ela é uma das 99 tripulantes do barco com sonhos de navio. Nina lembra de um dia em que ela usou um quepe, para ler um livro chamado "Poemares". O autor era José de Castro e ele até foi à escola. Agora tudo está claro.

          Nina acabou de descobrir que a Carochinha da sua escola, a tia, a moça, que ora tinha voz de fada, ora de bruxa, ora de onça, ora de pássaro, que até sabia cantar como sereia, é uma “mediadora de leitura”.  Nome elegante, escolhido pelas ciências educacionais. Nome ilustre, promovedor de viagens.

          Nina está perplexa! Nunca poderia imaginar que havia tantas pessoas trabalhando para que ela e outras crianças navegassem rumo ao mar da literatura. E pensar que tudo começou em um pequeno porto à beira de um rio simples, sem pompas, nem ventania. Bastou a primeira lufada de vento, para que o barquinho abrisse as velas e navegasse, determinado a cumprir seu destino. 45 portos pela frente.

          O que o futuro reservará ao projeto? A correnteza continua forte, mas as velas estão abertas. Se o vento soprar, ele zarpará. E mais crianças terão a oportunidade de conhecer o vasto mundo da leitura. 

          A leitora, que agora é uma adolescente, torce para que o barquinho siga em frente. Ela sabe que há outras Ninas aguardando nos portos. Leitoras em potencial, como ela era, há oito anos atrás.












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